sábado, 9 de julho de 2011 | By: Cinthya Bretas

Meu amor virtual



Anônimos, desconhecidos, velados, emascarados somos co-criadores de nós mesmo na rede e vagarosamente saltamos de uma solidão imensionável a uma possível revelação de nós mesmos muito além daquilo que supúnhamos ser.

A rede e seus múltiplos veículos e mecanismos, proporciona a ambigüidade da defesa e da visibilidade, cria-nos acesso ao outro e ao mesmo tempo em que nos restringe na segurança de nossos lares. Estamos aí do outro lado do monitor na confortável posição de vermos sem sermos vistos. Ou não inteiramente pelo menos. Somente naquilo que desejamos “explanar”.
A rede cria os espaços de “transcendência do ser” da modernidade. Se é da natureza humana não se conformar com a realidade, como pontua  Émile Durkheim,é nos ciberespaços que  encontra o ambiente per si de onde se projeta em direção ao infinito.
Multidimensional, poli-temporal o sujeito das redes está em todo lugar e em nenhum, semeando e descobrindo novas formas de ser em si e no outro. Novas formas de se ligar e religar num incessante trânsito de afetos. A multiplicidade de escolhas no ambiente virtual propicia uma deriva alucinada e sem cola.
A rede reformula “eu e você” para “eus e vocês”. Eus, porque sua fórmula de multivariações, multilinkagens, permite criar incessantemente, novas e antes impossíveis modalidades de si mesmo.
Novos eus, sejam eles novos unicamente enquanto alterados tanto pelo reconhecimento de novas e possíveis modalidades de existência, com possibilidades impensadas, quanto em possíveis identificações com sua própria realidade psico-afetiva-social ou com realidades idealizadas; assim como com a construção ou revelação da possibilidade de criação de identidades virtuais, eus fantasiosos, numa tessitura de imaginário que pode engrandecer, trespassar os limites contidos da tela e se apossar de seu criador gerando uma estranha desigualdade entre ele e o si mesmo.
Novos “vocês” porque lá do outro lado da fibra ótica também algo captado nos chega e nos escapa, aporta conhecido e desconhecido ao mesmo tempo. Como sempre acontece em termos de relacionamentos humanos, é verdade, porque a cada troca afetiva sempre sofrerá entrelaçamentos de nossos ideais do eu prontos a se atualizarem no mais próximo que sirva de receptáculo adequado.
Percebe-se assim que este ser humano do qual falamos e que está por natureza em eterna reedição de si mesmo,  aqui na rede adquire um aditivo inflacionante de virtualidade.
Estamos diante de outros que, mesmo que se desejassem se fazer realmente conhecer, escapariam à uma captação concreta, pois a rede com a plasticidade que lhe é própria e embaraçada nas projeções virtualísticas, transfigurará em duplicidade ou multiplicidade aquilo que recebe.Nos sagrados templos da virtualidade, a cada pagina, a cada segundo, um novo fenômeno se atualiza e, num único receptor, com muito mais facilidade, caberão mil possibilidades de projeção afetiva .
Mas e se de uma mera projeção, de uma simples conexão se deságua na paixão?Pode este amor, que pescamos no mar de faces, se tornar concreto?Manobra Arriscada...
Tratamos aqui da perversão do amor em sua segunda instância. O psicanalista francês Christian David em seu estudo L' État Amoureux, publicado em 1971, conceitua o estado amoroso usual, este no qual se enamora sempre de um eu idealizado e irreal, como uma perversão afetiva. Portanto o estado amoroso cibernético não seria um estado amplificado de relação idealizada, uma pluriperversão afetiva?
A relação virtual é construída sobre o mais do que simbólico, o amor que consagradamente sempre se instaurou sobre o carnal aqui dele prescinde. Sites de relacionamentos e salas de conversação provocam desdobramentos delirantes que se iniciam por vezes unicamente em torno do nome-código, ou avatar.
O amor sempre descrito a um conjunto de sintomas físicos em associação a rubores, suores frios, tremores, calores, desejos é retirado de suas carnes se espraiando em fina névoa imaginativa. Se ele se estabelece sobre a ausência de objeto, sobre um estranho real desencarnado, sem calor, sem odor, sem hormônio, é ao mesmo tempo o real irreal, sem presença e um delírio concreto.
Entre os sintomas do apaixonamento se incluem o sentimento de eternidade ou intemporalidade, então como se descreverá do que pode ser obtido na rede a cada movimento? Delírio ? Perdição? Não seria o apaixonamento virtual um evento psíquico próximo de um surto, um transbordamento em duplicado do apaixonamento cara a cara?   Qual é o percentual de projeções delirantes que são feitas numa relação assim? Quais as chances de se conseguir alcançar o real quando ocorrer a oportunidade de se deparar com ele frente a frente finalmente?
Este é o amor virtual e suas armadilhas. Nos descorporifica em nossos afetos criando amplitudes virtuais sobre as quais, estando nele, sequer elucubramos sobre as direções às quais nos desviam.
E podem sim nos levar ao namoro real, e até mesmo ao casamento real, o tempo todo pisando em solo lodoso e desconhecido. Porque se trata de uma relação que germina e prospera construída sobre sonhos, até que se possa ser efetivo e provar o contrário. Com tantas intervenções do imaginário é natural que mais da metade das relações que se iniciem na virtualidade não consigam decolar numa distância mais curta que a dos cabos de conexão. Ou, se decolam e chegam ao altar, terminam se esfacelando contra a pedra do cotidiano porque o bólido decolou com excessiva rapidez, sem o devido check-in que precede os rituais amorosos do mundo “real”.
Então o amor virtual está proibido? Será fadado ao fracasso sempre? Sempre é uma conjectura muito extensa. Existem chances do surpreendente abrir suas asas sobre nós a cada encruzilhada da vida.
No entanto, se arrisca buscar ai o amor de verdade almejado, adentre as câmaras de espelho das salas de bate papo de olhos bem abertos. Pergunte-se porque, observe os discursos e esteja disponível a prontamente facear este ser etéreo, corporifique-o.
Não, não para fazer sexo, somente, mas para exercitar seus instintos na avaliação direta, corpo a corpo, olho no olho. Usar a lógica é propício quando se trata de amor, mas não deve ser a única ferramenta de avaliação; a lógica excessiva pode lhe remeter a uma interpretação no mínimo paralogística do ser amado.
Portanto, sempre que possível confirme as informações que vem do outro virtual, não se jogue num apaixonamento assim desprovido de guarda. Quanto mais se protela o primeiro encontro por medo, mais ele se avoluma em ideais projetados os quais podem se tornar difíceis de descolar até que a convivência cotidiana de uma relação mostre que não era nada disso. Ai pode ser tarde demais, pode-se estar num comprometimento virtual de rompimento oneroso.
Mas antes de tudo, antes mesmo de adentrar o prelúdio amoroso das trocas de poesias, das confissões virtualísticas, das promessas alucinadas, precavenha-se perguntando a si mesmo(a) : Porque preciso buscar relações amorosas na internet? Como cheguei ao ponto de precisar me relacionar com um estranho em busca afetiva? Porque para mim a virtualidade ficou mais atraente do que as relações concretas e cotidianas? Porque a fantasia me satisfaz mais?
Mas, se você não consegue descer das nuvens esta relação, se ela necessita ficar assim eternamente à distância, platônica, imaginária e prenhe de promessas que jamais se concretizarão, talvez seja o momento de lembrar de sua condição de vivente encarnado e perguntar porque a intimidade assusta tanto, porque a solidão virou um ícone em sua vida da qual você somente finge se despregar pelos encontros que sabe, jamais serão concretizados.  A carne é necessária sempre. Somos humanos. 

2 comentários:

Nair Morbeck Sobrinha disse...

Seria possível o texto em Inglês?
Muito bom mesmo..

Shalom

Nair

Cinthya Bretas disse...

ô Nair, Muito obrigada , Posso providenciar mas temos uma barra Wibiya ai em baixo que faz uma tradução até que razoável.Abraço!

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