sexta-feira, 12 de novembro de 2010 | By: Cinthya Bretas

Regras para ser feliz no amor?

Criar regras sempre será em termos de trocas afetivas humanas engessar a relação. Então não deveríamos ter regras?Então... Deveríamos antes refletir sobre a questão e suas conseqüências.
Pensar na funcionalidade da existência de regras numa relação afetiva é quase como analisar as diferenças entre o ético e o moral. Isto porque, regras, quase sempre, dentro de uma relação se apóiam sobre princípios morais variáveis e efêmeros como as culturas que as erigem.
O que significa dizer que são construídas muito mais para suprir necessidades de um tipo particular de pensamento, de uma dada sociedade com suas crenças e normas políticas sociais econômicas e religiosas. No mais das vezes a ética resvala nestas regras de conduta relacionais. Resvala e poderá ou não ali se estabelecer como principio norteador.
A ética endereçada às regras de trocas simbólicas nas relações afetivas já chega provida de novos sentidos porque sempre cindida pela particularidade do histórico sócio afetivo de cada um. Mas deveria se precaver de um cuidado flexível, adaptável às situações de acordo com sua demanda.
A ética aqui proporia um principio básico que, aliás, norteia ou deveria nortear todos os movimentos sociais e religiosos: “Faz ao teu próximo como gostaria que fosse feito contigo.”.
Mas aí, estaremos de novo enveredando pelo movediço campo, onde, vários pesos se dissentem a várias medidas.
Se pensarmos numa das principais questões que costumam ser motivo de discórdia e dolo nas relações afetivas sejam elas de ordem afetiva parental vertical (pais e filhos, avós etc.) seja de ordem afetiva horizontal (irmãos, primos, amigos, vizinhos) ou de ordem afetivo–sexual (que seria a entre marido e mulher e namorado e ficante e amante), perceberemos que se enredam principalmente em torno do principio da lealdade.
 Sim, concordamos, esta deveria ser uma regra fundamental, porém a lealdade e suas múltiplas formas serão fontes de discórdia eterna e suas exigências e desdobramentos acabarão por abarcar, se permitido, todas as facetas do comportamento humano.
Exige-se lealdade afetiva. O amor, que deveria ser partilhado, distribuído, adicionado, multiplicado se torna moeda de troca e alvo de disputas entre pais e filhos, entre filhos e membros de casamento defeito, entre sogros e genros e noras, e entre amigos, vizinhos, alunos e até entre colegas de trabalho e chefes.Se o fator erário estiver implicado nos afetos, aí então os ressentimentos tomam vultos pesados.
Todo investimento afetivo precisa ser cuidadosamente dosado para não gerar ressentimentos. Poucos são os que terão a chance de aprender a receber e doar afeto de maneira desapegada. 
Em algumas organizações familiares exige-se lealdade até em escolha de sabores, em cores, times, religiosidade e todo o resto. Como se isto fosse o selo que blindasse contra invasões e garantisse a eternidade do amor entre marido e mulher, embora estranhamente a infidelidade conjugal seja, em algumas fatias da sociedade, a escolha preferida ao invés de se finalizar uma relação falida.
E falando-se em infidelidade, quando a relação implica relacionamento sexual, a fidelidade é uma exigência redobrada. Para alguns núcleos familiares e, pasme-se, também entre pais e filhos. Explico-me: o namoro, o noivo e até o casamento dos filhos terão de passar por crivo de aprovação e exigência. Alguns pais até mesmo se sentem traídos ao descobrirem que seus filhos tiveram sua iniciação sexual.
Alguns temerão este momento, outros tentarão protelá-lo ao máximo ou bani-lo da vida dos filhos e veja que existe como! Já outros a submeterão a regras duras e restritivas quanto à idade adequada, situação adequada, (leia-se antes ou depois do casamento ou noivado) e se possível estenderão também à escolha do parceiro adequado por critérios de raça, religião, condição econômica e social e opção sexual.
A exigência de lealdade aqui apela aos bons costumes, à tradição familiar ou à fuga da critica da sociedade. Afinal, o que os outros vão dizer?
Assim a lealdade e suas exigências poderão se estender a gostos pessoais, questões políticas, aparência, profissão e de repente sem que nos demos conta, se transfigurará em intolerância e prepotência.
Exigimos do ser amado que veja com os nossos olhos, sinta com nosso paladar, toque com a nossa pele e ande com as nossas pernas na direção que achamos ser a certa.
Exigimos que inexista. Tênue sombra que será do nosso EU monumental que a tudo deseja abarcar.
Não, não basta que nos ame é necessário que mantenha uma alta fidelidade, como os long-plays de antigamente, os avós dos CDS.
E esta alta fidelidade exige reprodução perfeita daquilo que pensamos, sentimos, e almejamos. Qualquer discordância é tida como traição.
Então não se deve exigir lealdade? Risca-se a regra?
A lealdade deriva da confiança, é um constructo como outro qualquer dentro de uma relação.
A confiança se inicia em tateios no escuro, se cultiva sobre o árido solo da sinceridade e brota entre os seixos pontiagudos da diferença e as ervas daninhas da intolerância.
E é assim, numa tarefa árdua que ela se faz e desfaz e, mesmo com tanto esforço, pode errar. Porque somos humanos.
E não é nossa confiança que erra é nosso julgamento e nossa necessidade também humana de criar paradoxos.
Porque se de um lado somos moventes e mutantes pela natureza da espécie, sempre buscando expansão e crescimento para não morrer, ao mesmo tempo almejamos imutabilidade e perpetuação, como um ideal de perenidade inalcançável desejamos viver para sempre e viver o amor que não muda e não se acaba.
A lealdade dentro de uma relação deve existir, necessita existir. É ela a urdidura que sustenta a trama cotidiana da relação.A lealdade ética. Já a fidelidade afetivo sexual em sua manutenção é um risco presumido que se assume sabendo-se desde o principio que exige muita capacidade de adequação diante do inusitado,e muita capacidade de renovação.Além de muita vontade e habilidade para manter as almas em movimento ascendente num ritmo compatível. E também muita tolerância diante das discrepâncias de ritmos de crescimento e diante dos impasses impostos pelos aprendizados afetivos da historia de cada um.Aprendizados estes que, certos ou tortos, compõe nosso repertório de respostas emocionais para nossa maior ou pior conseqüência.
Aí, se vacilar, a confiança e a lealdade se perdem. 
Porém se o tal solo de sinceridade sobre o qual deveriam ser plantadas pudesse ser fertilizado pelo amor, tendo nutrido suficientemente o seu cultivo, então a confiança geraria uma profunda lealdade.Uma lealdade que não se abalaria com mesquinharias e que diante de um possível e inevitável desenlace poderia criar um momento de aceitação carinhosa e desprendida, sabendo que o afeto ali cultivado se tornou eterno a despeito de uma impossibilidade de se continuar uma convivência cotidiana, e que o afastamento não significaria necessariamente a perda, mas sim a transformação de uma relação afetiva, e que sim, é possível sermos felizes para sempre, porque seguimos amorosos, confiantes e tolerantes sabendo que os momentos bons vividos juntos sempre superarão as discordâncias e nos acompanharão por toda eternidade.
Portanto, quais são as tais regras afinal?

Sinceridade + Confiança+Tolerância=Amor

Simples, né?

2 comentários:

Anônimo disse...

Gostei muito da sua abordagem, Cinthya! Acredito, que por ser uma Terapeuta Holossomática, você tem mais facilidade e confiança no atendimento ao paciente e, por conseguinte, no resultado final, pois,muni-se, também, da trilogia acima acitada: Sinceridade + Confiança + Tolerância= Amor!
Um abraço, Luísa

Nair Morbeck Sobrinha disse...

Amei seus textos, to seguindo...Estão me ensinando a lidar com minhas dúvidas sobre esses temas tão presentes e recorrentes nas nossas vidas..
Obrigada!
Shalom

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