terça-feira, 21 de abril de 2015 | By: Cinthya Bretas

A dívida que não se paga: o Homem histérico e seus endividamentos


   
 Imagine a cena. Numa reunião social qualquer, um homem adentra a sala. Bonito ou feio percebe-se que cuida minuciosamente de sua aparência, que buscará sempre alguma forma de destaque. 
 Sua entrada quase teatral solicita plateia. Logo estará inserido socialmente e assim que possível tentara seduzir alguma mulher ou a todas, de preferência. E conseguirá já que tem o dom de adivinhar em cada uma seus desejos mais recônditos.
Busca satisfazê-la em tudo, mas jamais cederá a si mesmo já que, embora sedutor, não consegue estabelecer um vínculo real. Ou se o faz, será de forma parcial, provisória. Quem é este homem que costumamos chamar pela doce alcunha de Dom Juan ou menos gentilmente de mulherengo cafajeste? Quem nunca se deparou com esta figura em seu caminho causando talvez perplexidade ou mesmo sofrimento. Afinal como decifrar este personagem ambíguo? O garanhão sedutor, gentil e emocional ao mesmo tempo muitas vezes descontrolado, cujas crises agressivas, cuja ira injustificada e violência contra a mulher ou outras figuras frágeis ao seu redor, volta e meia apontam e o denunciam?
É apenas um homem histérico. Histérico, sim, pois pra quem não sabia, a histeria não se trata unicamente de uma manifestação feminina, embora assim houvesse sido considerada por muito tempo. Tanto que o termo histeria vem do grego hysther ou útero.
Mas não, os sem útero também podem ser histéricos e é do fundo do seu útero inexistente que emergem suas emoções exacerbadas. E a histeria também para aqueles que nem imaginam o que seja, não é apenas a característica de uma pessoa que faz muitos escândalos, desmaia e tal, a dita barraqueira. Não, histeria é uma psiconeurose cujos sintomas pontam para um grande conflito emocional inconsciente que se faz conhecer através de uma severa dissociação mental, ou outros sintomas físicos e psicoafetivos .
A gíria "dar piti" tão correntemente usado hoje em dia, tem origem justamente de "pitiatismo", termo cunhado por Joseph Babinski (1857-1932) aos distúrbios secundários da histeria, fenômenos passiveis de serem aplacados unicamente por "persuasão". Como os famosos tapas na cara que assistimos nos filmes , por exemplo , lembra? Esta vendo só? A histeria esta mais presente no seu cotidiano do que podia imaginar .
Este sujeito histérico, além da sedução apresenta outras características que algum pouco aprofundamento na relação trará a chance de conhecer melhor. Por exemplo, as marcantes compulsões, ajudam a reconhecê-lo facilmente; a atração patológica pela jogatina, sua bipolaridade estilo "miojo", quase que instantânea e alguns comportamentos destemperados que fazem com que a maioria destes sujeitos passe a se tornar habituées de delegacias e prontos socorros.


O velho Freud, nos primórdios de seus estudos (1893-1895), reconhecia a histeria na sua forma masculina como expoente nos "traumatismos honrosos" o que na época era muito presente dos egressos da guerra, homens em cujas sequelas de acidentes ou de ações violentas se colocam na posição de vítima ou herói, covarde ou corajoso, status que carrega como o estandarte justificador que alimenta o alcoolismo, a impotência e/ou a ejaculação precoce ou mesmo a dificuldade em alcançar o orgasmo. Hoje, os sintomas se mantêm. Afinal, acidentes e violências temos à rodo. Homens histéricos também.


    Nos tempos modernos de consumismo e não tão à huis clos, pra muito além do mais facilmente perceptível histrionismo, no homem histérico se destaca o endividamento excessivo e as neuroses de fracasso. Fracasso sim. Começa e não termina, posterga, e falha. Grande procrastinador, o homem de personalidade histérica valoriza seu trabalho de maneira extrema como sua extensão narcísica.
E alguns quase chegam lá, mas falham, por erros crassos muitas vezes. Se sabotam sempre que for possível . Seu endividamento é uma forma de manutenção simbólica de um endividamento maior. Uma metáfora que precisa ser decifrada e segundo Rassial (2005) este endividamento excessivo pode ser uma das maneiras encontradas pelo histérico, dentro das múltiplas variações de sintomas que a histeria masculina pode assumir, que o permite um enquadramento numa socialização paradoxal.
Ele tem o destaque social, pois pode chegar a consumir o tanto que consumiu, mas se sabota ao ser impotente para honrar seu compromisso. Compromisso? Lembrem-se, os histéricos odeiam compromissos. Só não odeiam o compromisso mais do que odeiam a escolha.

 
Como preferem não escolher, nunca escolher, já que escolher seria a chegar a termo numa coisa desejada, costumam acumular tarefas perigosamente, assim como acumulam romances , mas sempre acabam falhando em um ou em outro. Não existe isso ou aquilo. Existe isso, e mais isso, e mais isso. Até explodir.
Mas o histérico é mesmo incapaz de escolher, de decidir? Não, lógico, ele pode. Se muito pressionado. Se inevitável. Mas se escolhe, ai dele, insatisfeito geme, porque a escolha do outro é a melhor. Sempre, sempre melhor que a sua. Do objeto mais prosaico à escolha da esposa, o que é do outro é sempre melhor que o seu. Eterno insatisfeito.
Assim, nas trocas intimas, quando não desempenha a tal função do eterno sedutor, do que jamais assume um compromisso real por varias razões, usando até desculpas aparentemente racionais, ao escolher procurará a dedo a parceria que garantirá mantê-lo numa relação insatisfatória e que por sê-lo, cria a justificativa para continuar sua imprescindível sedução. Nunca se comprometerá por amor, por tesão . Nunca algo consistente embasa suas escolhas. 
Paradoxalmente inteligentes, transitoriamente bem sucedidos, mas secretamente endividados. Marcando em seus atos sempre a impossibilidade de se alcançar o desejo, a meta, o gol! O grande gozo do histérico, já percebeu , é a privação do gozo. A manutenção da insatisfação custe o que custar.
Harry Stack Sullivan (1892-1949) em seus Estudos Clínicos chamou atenção para mais uma característica que pode passar despercebida por muito tempo. O homem histérico mente. Tão dândi, tão "bem sucedido"... E como mente. Coisinhas miúdas, outras nem tanto. Mente para escamotear o seu fracasso, ou mente por mentir, num impulso fantasioso. Afinal a vida para ele precisa ter o colorido das suas emoções extremas. Exagera, pode-se dizer indo além da realidade sem que necessite haver algum propósito.
Sujeitos emocionais ao extremo. Suas emoções tem um tom que o diferencia dos demais homens tanto na alegria quanto na dor que se manifestam de maneiras estranha e muitas vezes desproporcional ao contexto. Estas emoções extremas do caráter histérico masculino têm suas manifestações no corpo através de crises ansiosas com alterações cardíacas, distúrbios gastrointestinais, imaginário hipocondríaco, enquanto a mulher histérica apresenta com mais frequência paralisias, anestesia, cefaléias. O alcoolismo e a drogadição são as cerejas do bolo.

Sugestionáveis, melindrosos e teatrais os homens histéricos podem se adaptar a qualquer papel que os faça sobressair dentro das necessidades da grande insegurança de sua passividade feminina. 
 Isto faz com que se coloquem como Protheus modernos. Seus sintomas podem ser enganadores como eles mesmos se comprazem em ser, gerando muitas vezes diagnósticos equivocados diante de seus sintomas ambíguos. Alonso e Fuks advertem em seu livro Histeria (2004): "alucinações e transtornos de pensamento não é suficiente para pensar que se está na presença de um esquizofrênico, a constatação de um excesso de impulsividade, de irritabilidade ou de atuações não caracteriza necessariamente um transtorno borderline. (192)".
Na modernidade o par biunívoco - mulher histérica x homem obsessivo - mudou e no cotidiano clinico da terapia de casal a mulher obsessiva que é desposa o homem histérico.
A esposa obsessiva desesperada com o marido sedutor e perdulário, alcoólatra ou drogadito ou viciado em jogo busca ajuda já desesperada. O marido histérico, acuado e enredado em suas mentiras e seu endividamento foge desesperado de sua contenção.
Fica no ar a grande pergunta: Existe futuro para este contrato?