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domingo, 25 de maio de 2014 | By: Cinthya Bretas

Deixando os pais fora da relação



Quem casa quer casa. Longe da casa onde se casa.Em algumas situações de preferência bem, bem longe. 

Inicio de vida nova, oficializada ou não, requer coragem e paciência. Encarar as diferenças, aprender a conviver e principalmente fazer o seu primeiro estágio como uma unidade convivendo com outra unidade.
Alguns poderão ter tido a sorte de ter tido uma experiência de vivência longe  da família de origem antes de encontrar a pessoa com a qual decide dividir a sua vida. Outros terão a possibilidade até de um"test drive", um pré casamento de avaliação. Porém a maioria ainda seguirá a velha fórmula saindo direto da casa dos pais para a nova vida, sem chance de se descobrirem de maneira mais profunda.
Namorar e noivar é uma coisa.Convivência diária é muito diferente. Aí emergem os conflitos e, a maioria deles, trazemos de casa , de nossa família de origem. 
Porque, vivendo no ambiente da família estamos expostos a influências das quais não tomamos consciência. Ou tomamos, nos incomodamos até, mas ainda assim não conseguimos operar como uma unidade, nos diferenciando. Ainda somos a repetição das fórmulas de relacionamento com as quais convivemos e que desapercebidamente introjetaremos como nossas nas nossas próximas relações.
No filme História de nós dois (1999) existe uma cena antológica que resume bem o que estou tentando dizer. Nesta cena o casal, já em vias de se separar, tenta abrir diálogo pacífico, relembrando as tentativas de terapia de casal feitas e lembram o analista freudiano que os adverte que na cama do casal na verdade existem seis pessoas e não duas como poderiam supor. 
O casal zomba do analista, mas em seguida começa a discutir acirradamente e repentinamente surgem outros interlocutores, os casais de pais de cada um, que  na cama junto com o casal  ,começam a interferir na discussão. Cada um com suas idiossincrasias, que fizeram dos seus filhos o que são, fazendo-os dizer e agir de acordo com o que aprenderam. Trata-se de uma alegoria perfeita da situação que se estabelece quando ocorrem os conflitos.

E é assim que é, saímos de casa, com toda a herança emocional e cultural de nossas famílias para unirmos nossas vidas a alguém cujas heranças se assemelham ou divergem das nossas. Às vezes apenas em alguns aspectos, outras, no entanto de maneira abismal.
Havendo possibilidade, como já foi pontuado, os filhos podem ter tido a chance de se renovarem em suas respostas emocionais, se descobrirem além das verdades e leis afetivas e comportamentais da casa paterna. Outros com menos chance ou permissão interna, jamais conseguirão se distanciar, seguindo unicamente aquelas mesmas regras que podem ser destrutivas. Como seus pais. 
E estas regras interferirão profundamente nas suas vinculações afetivas pelo resto de suas vidas. 
É importante entender que esta influência sempre estará lá , somos frutos de nossa dupla parental e suas formas de amar. Aquilo que pode  causar um comprometimento que irá influenciar negativamente ou mesmo impedir que o sujeito estabeleça vínculos extra familiares  saudáveis é justamente o tipo de troca que se estabeleceu.
 Existem famílias ditas disfuncionais que carregam conflitos encobertos, camuflados em meio as interações. Aparentemente tudo parece perfeito, as vezes até perfeitinho demais.  No entanto estes conflitos sempre virão à tona quando as relações extra familiares começarem a se estabelecer.
Casos extremos são de famílias simbióticas e esquizoides.Nas denominadas simbióticas as relação que se estabelecem são de “devoramento”  onde membros da família são "absorvidos" por outros membros dominantes, impedindo-os de desenvolver plenamente suas próprias personalidades. O exemplo mais óbvio é a absorção do filho por seus pais ,  de modo que a personalidade do sujeito  é simplesmente um reflexo dos desejos dos pais. 
Já nas famílias esquizoides ocorre o oposto, as relações são frias e distantes ,não existe dialogo algum e manifestações  afetuosas são quase banidas. Todos coabitam e desenvolvem suas tarefas minimizando as trocas e convivência mútua como se sentisse que a aproximação fosse  ameaçadora. E é.
Em ambos os casos estaremos diante de um vinculação na qual  a  preponderância é a  ausência de diferenciação entre os membros. Em ambos os casos os sujeitos não tem direito a uma existência individual e terão grande dificuldade em desenvolver outros relacionamentos.

Algumas famílias sentindo esta possibilidade como ameaçadora à homeostase familiar, tentarão sabotar estas ”interferências” externas, já que são vistas como um risco pois podem fazer com que os sujeitos repensem seus comportamentos encontrando formas diferenciadas e particulares, apartadas das acordos afetivos de suas famílias de origem e fugindo do controle . Esta sabotagem pode ser invasiva e poderosa.
Outros  sujeitos nem precisarão desta intervenção . Sim, eles até conseguirão se relacionar relativamente bem, namorarão e até casarão, mas irão carregar as regras e a sombra desta família de maneira tão forte que será impossível desenvolver regras de adaptabilidade em sua nova relação ou família uma vez que somente as interlocuções antigas serão possíveis. O sujeito não consegue se reinventar como uma unidade. Na maioria das vezes este sujeito buscará um conjugue que por suas dificuldades emocionais e submissão irá se adaptar com mais facilidade se permitindo “fagocitar” pela família de origem.

Numa família funcional, a particularidade e a individualidade e as escolhas dos membros são reconhecidas e respeitadas. Já tanto nas famílias simbióticas quanto nas esquizoides isso não ocorre, ambas as vinculações são disfuncionais e destituídas de habilidades sociais competentes. As chances de fracasso nos relacionamentos externos à família serão notáveis.
Somos sempre fruto destas experiências e aprendizados intra familiares e todos repetiremos consciente ou inconscientemente as lições aprendidas em casa em palavras ou atos. 
A maior ou menor capacidade e coragem de se auto conhecer e de se adaptar , em suma de se reinventar na direção do encontro amoroso verdadeiro e funcional é que denunciará as dificuldades das famílias de origem.
Aí teremos que nos ver com estes diálogos ressentidos, como os do filme, onde jamais se chega a um acordo, onde apenas se repete um modo de agir que nos foi ensinado de maneira rígida e intolerante. Onde a única coisa que importa é uma demarcação de território onde a família mais forte é a que deverá imperar. 
E onde há intolerância o amor não entra. E onde não existe amor, onde está a relação?
sexta-feira, 30 de setembro de 2011 | By: Cinthya Bretas

Vivendo na Fronteira: Transtorno de Personalidade Borderline



Alguns de nós viveremos eternamente na fronteira. Nem no país da desrazão total e nem tampouco no país da “sanidade” absoluta. E será ali na fronteira, nem lá nem cá que estes se instalarão com sua dor. Impossibilitados de optar pelo mergulho no mar sem fim da psicose, alguns sujeitos farão a escolha de um estado onde pousarão desconfortavelmente numa corda-bamba de escolhas muitas vezes perigosas.
 Estes são os borderline. Uma escolha psíquica que já foi retratada em inúmeros exemplos na literatura e que mais recentemente tem na personagem principal do filme “Garota, interrompida” um dos seus mais famosos exemplos. Uma estranha escolha psíquica que acomete especialmente a população feminina e a principio lembra aqueles extremos emocionais comuns ocorrentes na adolescência, fervilhante de hormônios nascentes, que se dissipam naturalmente na maturidade, mas que para o paciente borderline jamais se extinguirão tão facilmente.
Nas primeiras investigações em torno dos pacientes que apresentavam estes sintomas foram, entre outras denominações, apelidados de “esquizofrênicos latentes”. Como se neles a esquizofrenia estivesse encapsulada. Seu comportamento sempre leva ao sofrimento pelo extremismo com que se expressa em todos os aspectos de sua vida. Os pacientes hoje denominados como borderline, eram vistos, portanto, como sujeitos que trafegavam entre a neurose e a psicose. E não estariam completamente na psicose porque seu raciocínio estaria ainda intacto, sem as confusões delirantes apresentadas nas psicoses.

Sendo assim um transtorno considerado inicialmente pela psiquiatria como pertencente ao grupo das psicoses, encontrava-se associado à esquizofrenia até que em 1979 num estudo de Spitzer, Endicott e Gibbon[1], teve seus vários aspectos reavaliados, passando a ser visto como pertencente a classe dos Transtornos de Personalidade Emocionalmente Instável e classificado como um distúrbio de personalidade “borderline”, ou seja fronteiriço. Somente em 1980 o termo borderline foi definitivamente aplicado a estes pacientes cuja característica mais marcante e de maior sofrimento é a maneira descompensada com que estabelecem seus laços afetivos.
Alguns aspectos do comportamento destes pacientes, assim como a legenda central entorno da qual se estabelecem suas reincidentes perturbações, são a impulsividade descontrolada, as alternâncias bruscas de humor e o massivo investimento afetivo em seus relacionamentos assim como sua maneira contraditória de externar estes afetos.

Os sentimentos crônicos de vazio e a intolerância em estar só costumam ser queixas reincidentes e se estabelecem e alternam freqüentemente com uma busca intermitente por novas relações interpessoais que costumam se desenvolver de forma muito dramática, extremada e conturbada gerando muita frustração e considerável grau de sofrimento pelo seu amplo espectro de ambigüidade na expressão de afetos e pela forte carga de conflitos que são ocasionados, uma vez que a vinculação massiva e a hostilidade são concomitantes.

Uma grande insegurança e enorme necessidade de se fazer amado permeiam as fantasias de abandono, que podem ou não ter raízes em vivências concretas e explicitas de abandono anterior. Estas fantasias obviamente serão muitas vezes o eixo de discórdia dentro das relações. Trata-se de um sujeito que, a despeito de todo afeto e atenção recebido, sempre consegue encontrar uma sinalização, pequena e irracional que seja, de que aquela manifestação de amor não é assim tão verdadeira, de que alguma coisa não foi completamente satisfeita em suas necessidades afetivas. E a verdade, é que jamais será.  Os conflitos em torno deste tema serão crivados de intensa agressividade.

Deste modo a raiva, ou grande irritação, dirigida a pessoas ou objetos costuma ser o tom norteador dos afetos e uma depressão de fundo aparece sempre acompanhada pelo sentimento de rejeição e de grande solidão. Este perfil de dependência afetiva promove nestes sujeitos a alta freqüência de sentimentos de desamparo, fraqueza, medo de abandono e uma forte necessidade de nutrição afetiva, para se sentirem protegidos e amados. Angústia e a sensação de aniquilação e insegurança são tônicas do cotidiano do sujeito sem, no entanto serem notados o estabelecimento de algum tipo de delírio estruturado

Mantendo desta maneira uma raiva ressentida e irracional e sobre a qual não conseguem ter controle, como afeto preponderante, expressam sua sexualidade também de maneira intempestiva e geralmente promíscua. A impetuosidade exacerbada contrasta com a concomitante dependência emocional e a intensa e ininterrupta necessidade de amparo vindo daqueles com os quais conseguem estabelecer laços mais duradouros e significativos. É o que às vezes se denomina na linguagem popular de “morde-assopra”. Ao mesmo tempo necessita emocionalmente de certas pessoas até mesmo para desenvolver muitas atividades cotidianas e por outro lado mantém uma atitude agressiva de eterno conflito com as mesmas.

O Sujeito de personalidade fronteiriça parece apresentar a principio uma vida afetiva como a de qualquer uma pessoa em maior equilíbrio psíquico, com a devida preservação de habilidades afetivas e a capacidade emocional sensível e integra. Conseguem manter uma vida social até mesmo razoável. No entanto qualquer frustração, mínima que seja diante de suas expectativas pode gerar a brusca dissolução de uma relação afetiva ou de um investimento qualquer percebido como importante. Portanto, suas trocas afetivas serão sempre marcadas pelos afetos intensos, intempestivos e instáveis. Se por um lado nas relações superficiais existe uma adequação social, qualquer aprofundamento numa relação mais intima desenvolve uma interação repleta de instabilidade e inadequação nas respostas emocionais. Aí se manifestarão os traços de dependência, instabilidade manipulação e agressividade sem fundamentos ou exagerada.

Seu comportamento agressivo volta-se sobre si mesmo num processo de autodestruição característico que poderá ter como objetivo o mais das vezes, atrair para si atenção numa exigência extremada de afeto. A intenção de promover a manipulação dos outros, de chamar a atenção inclui o envolvimento e abuso de álcool, drogas e tendência à delinqüência, que ocorrem como se estivesse interpretando um papel, criando um personagem “viciado” ou desajustado.

 Com o mesmo objetivo também ocorrem as autolesões, e este comportamento, pode mesmo chegar às tentativas de suicídio, mas ressaltando-se que com um pouco de investigação poderemos captar a nuance que denunciará a manipulação implícita.
Sua autodestrutividade inclui comportamentos de risco, voltados a atitudes radicais, que primam por atividades perigosas como dirigir de maneira inapropriada, alcoolizados ou drogados e outras buscas desenfreadas de situações arriscadas que geram adrenalina. Esta autodestrutividade abarca promiscuidade sexual, perversões na busca de afeto e na expressividade sexual, e freqüentemente a busca de objetos de afeto inadequados pelas implicações destrutivas do relacionamento. A identidade sexual costuma ter um status também fronteiriço.

No entanto a despeito da constante busca de atividade sexual de risco ocorre uma importante dificuldade em sentir prazer ou mesmo buscar prazer ou realização em algum aspecto de sua vida. Dificilmente investirão em situações realmente supridoras de prazer e satisfação pessoal.
Os investimentos se existem são situações que têm sempre um atributo de inalcançabilidade, mas, ainda que possam se aproximam de seus objetivos, estejam eles alcançados ou prestes a ser conseguidos, são rapidamente desinvestidos, perdem o interesse.

È notável a existência de um baixo desempenho escolar ou profissional para o nível de inteligência apresentado e a falta de metas ou de capacidade em cumpri-las, paralelos a uma insatisfação permanente com frustração reincidente são outra constante. O sujeito acredita que vale menos, sabe menos. Percebe-se como fútil, incapaz e sempre uma grande ansiedade e uma fixação ideativa colore estes sentimentos. São comuns episódios freqüentes de despersonalização, distúrbios de identidade e episódios de ideação paranóide.

A intenção de promover a manipulação dos outros, de chamar a atenção inclui o envolvimento e abuso de álcool, drogas e tendência à delinqüência, que ocorrem como se estivesse interpretando um papel, criando um personagem “viciado” ou desajustado.

A grande pergunta neste como em todos os tratamentos de desordens psico-afetivas será o que da origem a esta patologia tão sofrida. A maioria dos  estudos feitos em pacientes com transtorno de personalidade borderline, apontam às ocorrências na infância de privação da presença dos pais (principalmente a mãe), assim como problemas familiares intensos. Nos últimos anos passou-se a investigar a relação entre abuso sexual na infância e a personalidade borderline. Nesse caso os estudos encontraram taxas que variavam de 10 a 73% dos pacientes borderline com passada de abuso sexual por parte dos pais ou de quem tomava conta deles; sendo que desses 33% tiveram relações incestuosas.
Ainda nesse assunto, 16 a 71% dos borderline sofreram abuso sexual por pessoas não ligadas ao relacionamento direto.

Outras avaliações mais apoiadas na biologia apontam formas de pensar, e estressores sociais (modelo psicossocial). Segundo esta abordagem os indivíduos com BPD são biologicamente mais propensos a ter anormalidades no tamanho do hipocampo, no tamanho e no funcionamento da amígdala e no funcionamento dos lobos frontais, que são as áreas do cérebro que são entendidos como regular as emoções e integrar pensamentos com as emoções. Embora contradizendo este principio outras pesquisas afirmam que as pessoas com TPB parecem ter áreas do cérebro que são mais e menos ativos em comparação com indivíduos que não têm o transtorno.Portanto, padrões específicos de funcionamento cerebral, como são atualmente estudadas e entendidas, parecem preditores confiáveis ​​da TPB.
Embora esta abordagem faça um enquadre genético, ela pode tanto ser manifestar em indivíduos de uma mesma família como pode ocorrer em eventos isolados. Mesmo a ocorrência de algo biologicamente comprovável em termos de funcionamento cerebral o fato é que os mesmos estudos associam a forte propensão do individuo ter sofrido abuso na infância ou ter sido negligenciado pelos pais. Poderemos, portanto a partir disto supor uma provável interferência dos processos psico-afetivos em ressonância nos processos neurais e na bioquímica cerebral do paciente acarretando este transtorno.
O tratamento deste transtorno exige uso psicofármacos, mas sempre em associação com a psicoterapia. Esta é uma ferramenta comprovadamente eficiente neste tratamento. Estudos comprovaram que através de terapia psicanalítica alcança-se uma redução dos sintomas depressivos assim como o número de tentativas de suicídio e agressão e melhor funcionamento interpessoal e social.
Para os pacientes internados egressos de crises a evolução diminuiu os dias de internação e após a alta estes pacientes, em contraste com outros métodos terapêuticos, também garantiu menores índices de recidiva de episódios extremos após terapia emergencial no hospital.



[1] Spitzer; J. Endicott & M. Gibbon. “Crossing the border into borderline personality and borderline schizophrenia”. Arch. Gen. Psychiatry, 36, 1979.

Vivendo na Fronteira: Transtorno de Personalidade Borderline



Alguns de nós viveremos eternamente na fronteira. Nem no país da desrazão total e nem tampouco no país da “sanidade” absoluta. E será ali na fronteira, nem lá nem cá que estes se instalarão com sua dor. Impossibilitados de optar pelo mergulho no mar sem fim da psicose, alguns sujeitos farão a escolha de um estado onde pousarão desconfortavelmente numa corda-bamba de escolhas muitas vezes perigosas.
 Estes são os borderline. Uma escolha psíquica que já foi retratada em inúmeros exemplos na literatura e que mais recentemente tem na personagem principal do filme “Garota, interrompida” um dos seus mais famosos exemplos. Uma estranha escolha psíquica que acomete especialmente a população feminina e a principio lembra aqueles extremos emocionais comuns ocorrentes na adolescência, fervilhante de hormônios nascentes, que se dissipam naturalmente na maturidade, mas que para o paciente borderline jamais se extinguirão tão facilmente.
Nas primeiras investigações em torno dos pacientes que apresentavam estes sintomas foram, entre outras denominações, apelidados de “esquizofrênicos latentes”. Como se neles a esquizofrenia estivesse encapsulada. Seu comportamento sempre leva ao sofrimento pelo extremismo com que se expressa em todos os aspectos de sua vida. Os pacientes hoje denominados como borderline, eram vistos, portanto, como sujeitos que trafegavam entre a neurose e a psicose. E não estariam completamente na psicose porque seu raciocínio estaria ainda intacto, sem as confusões delirantes apresentadas nas psicoses.

Sendo assim um transtorno considerado inicialmente pela psiquiatria como pertencente ao grupo das psicoses, encontrava-se associado à esquizofrenia até que em 1979 num estudo de Spitzer, Endicott e Gibbon[1], teve seus vários aspectos reavaliados, passando a ser visto como pertencente a classe dos Transtornos de Personalidade Emocionalmente Instável e classificado como um distúrbio de personalidade “borderline”, ou seja fronteiriço. Somente em 1980 o termo borderline foi definitivamente aplicado a estes pacientes cuja característica mais marcante e de maior sofrimento é a maneira descompensada com que estabelecem seus laços afetivos.
Alguns aspectos do comportamento destes pacientes, assim como a legenda central entorno da qual se estabelecem suas reincidentes perturbações, são a impulsividade descontrolada, as alternâncias bruscas de humor e o massivo investimento afetivo em seus relacionamentos assim como sua maneira contraditória de externar estes afetos.

Os sentimentos crônicos de vazio e a intolerância em estar só costumam ser queixas reincidentes e se estabelecem e alternam freqüentemente com uma busca intermitente por novas relações interpessoais que costumam se desenvolver de forma muito dramática, extremada e conturbada gerando muita frustração e considerável grau de sofrimento pelo seu amplo espectro de ambigüidade na expressão de afetos e pela forte carga de conflitos que são ocasionados, uma vez que a vinculação massiva e a hostilidade são concomitantes.

Uma grande insegurança e enorme necessidade de se fazer amado permeiam as fantasias de abandono, que podem ou não ter raízes em vivências concretas e explicitas de abandono anterior. Estas fantasias obviamente serão muitas vezes o eixo de discórdia dentro das relações. Trata-se de um sujeito que, a despeito de todo afeto e atenção recebido, sempre consegue encontrar uma sinalização, pequena e irracional que seja, de que aquela manifestação de amor não é assim tão verdadeira, de que alguma coisa não foi completamente satisfeita em suas necessidades afetivas. E a verdade, é que jamais será.  Os conflitos em torno deste tema serão crivados de intensa agressividade.

Deste modo a raiva, ou grande irritação, dirigida a pessoas ou objetos costuma ser o tom norteador dos afetos e uma depressão de fundo aparece sempre acompanhada pelo sentimento de rejeição e de grande solidão. Este perfil de dependência afetiva promove nestes sujeitos a alta freqüência de sentimentos de desamparo, fraqueza, medo de abandono e uma forte necessidade de nutrição afetiva, para se sentirem protegidos e amados. Angústia e a sensação de aniquilação e insegurança são tônicas do cotidiano do sujeito sem, no entanto serem notados o estabelecimento de algum tipo de delírio estruturado

Mantendo desta maneira uma raiva ressentida e irracional e sobre a qual não conseguem ter controle, como afeto preponderante, expressam sua sexualidade também de maneira intempestiva e geralmente promíscua. A impetuosidade exacerbada contrasta com a concomitante dependência emocional e a intensa e ininterrupta necessidade de amparo vindo daqueles com os quais conseguem estabelecer laços mais duradouros e significativos. É o que às vezes se denomina na linguagem popular de “morde-assopra”. Ao mesmo tempo necessita emocionalmente de certas pessoas até mesmo para desenvolver muitas atividades cotidianas e por outro lado mantém uma atitude agressiva de eterno conflito com as mesmas.

O Sujeito de personalidade fronteiriça parece apresentar a principio uma vida afetiva como a de qualquer uma pessoa em maior equilíbrio psíquico, com a devida preservação de habilidades afetivas e a capacidade emocional sensível e integra. Conseguem manter uma vida social até mesmo razoável. No entanto qualquer frustração, mínima que seja diante de suas expectativas pode gerar a brusca dissolução de uma relação afetiva ou de um investimento qualquer percebido como importante. Portanto, suas trocas afetivas serão sempre marcadas pelos afetos intensos, intempestivos e instáveis. Se por um lado nas relações superficiais existe uma adequação social, qualquer aprofundamento numa relação mais intima desenvolve uma interação repleta de instabilidade e inadequação nas respostas emocionais. Aí se manifestarão os traços de dependência, instabilidade manipulação e agressividade sem fundamentos ou exagerada.

Seu comportamento agressivo volta-se sobre si mesmo num processo de autodestruição característico que poderá ter como objetivo o mais das vezes, atrair para si atenção numa exigência extremada de afeto. A intenção de promover a manipulação dos outros, de chamar a atenção inclui o envolvimento e abuso de álcool, drogas e tendência à delinqüência, que ocorrem como se estivesse interpretando um papel, criando um personagem “viciado” ou desajustado.

 Com o mesmo objetivo também ocorrem as autolesões, e este comportamento, pode mesmo chegar às tentativas de suicídio, mas ressaltando-se que com um pouco de investigação poderemos captar a nuance que denunciará a manipulação implícita.
Sua autodestrutividade inclui comportamentos de risco, voltados a atitudes radicais, que primam por atividades perigosas como dirigir de maneira inapropriada, alcoolizados ou drogados e outras buscas desenfreadas de situações arriscadas que geram adrenalina. Esta autodestrutividade abarca promiscuidade sexual, perversões na busca de afeto e na expressividade sexual, e freqüentemente a busca de objetos de afeto inadequados pelas implicações destrutivas do relacionamento. A identidade sexual costuma ter um status também fronteiriço.

No entanto a despeito da constante busca de atividade sexual de risco ocorre uma importante dificuldade em sentir prazer ou mesmo buscar prazer ou realização em algum aspecto de sua vida. Dificilmente investirão em situações realmente supridoras de prazer e satisfação pessoal.
Os investimentos se existem são situações que têm sempre um atributo de inalcançabilidade, mas, ainda que possam se aproximam de seus objetivos, estejam eles alcançados ou prestes a ser conseguidos, são rapidamente desinvestidos, perdem o interesse.

È notável a existência de um baixo desempenho escolar ou profissional para o nível de inteligência apresentado e a falta de metas ou de capacidade em cumpri-las, paralelos a uma insatisfação permanente com frustração reincidente são outra constante. O sujeito acredita que vale menos, sabe menos. Percebe-se como fútil, incapaz e sempre uma grande ansiedade e uma fixação ideativa colore estes sentimentos. São comuns episódios freqüentes de despersonalização, distúrbios de identidade e episódios de ideação paranóide.

A intenção de promover a manipulação dos outros, de chamar a atenção inclui o envolvimento e abuso de álcool, drogas e tendência à delinqüência, que ocorrem como se estivesse interpretando um papel, criando um personagem “viciado” ou desajustado.

A grande pergunta neste como em todos os tratamentos de desordens psico-afetivas será o que da origem a esta patologia tão sofrida. A maioria dos  estudos feitos em pacientes com transtorno de personalidade borderline, apontam às ocorrências na infância de privação da presença dos pais (principalmente a mãe), assim como problemas familiares intensos. Nos últimos anos passou-se a investigar a relação entre abuso sexual na infância e a personalidade borderline. Nesse caso os estudos encontraram taxas que variavam de 10 a 73% dos pacientes borderline com passada de abuso sexual por parte dos pais ou de quem tomava conta deles; sendo que desses 33% tiveram relações incestuosas.
Ainda nesse assunto, 16 a 71% dos borderline sofreram abuso sexual por pessoas não ligadas ao relacionamento direto.

Outras avaliações mais apoiadas na biologia apontam formas de pensar, e estressores sociais (modelo psicossocial). Segundo esta abordagem os indivíduos com BPD são biologicamente mais propensos a ter anormalidades no tamanho do hipocampo, no tamanho e no funcionamento da amígdala e no funcionamento dos lobos frontais, que são as áreas do cérebro que são entendidos como regular as emoções e integrar pensamentos com as emoções. Embora contradizendo este principio outras pesquisas afirmam que as pessoas com TPB parecem ter áreas do cérebro que são mais e menos ativos em comparação com indivíduos que não têm o transtorno.Portanto, padrões específicos de funcionamento cerebral, como são atualmente estudadas e entendidas, parecem preditores confiáveis ​​da TPB.
Embora esta abordagem faça um enquadre genético, ela pode tanto ser manifestar em indivíduos de uma mesma família como pode ocorrer em eventos isolados. Mesmo a ocorrência de algo biologicamente comprovável em termos de funcionamento cerebral o fato é que os mesmos estudos associam a forte propensão do individuo ter sofrido abuso na infância ou ter sido negligenciado pelos pais. Poderemos, portanto a partir disto supor uma provável interferência dos processos psico-afetivos em ressonância nos processos neurais e na bioquímica cerebral do paciente acarretando este transtorno.
O tratamento deste transtorno exige uso psicofármacos, mas sempre em associação com a psicoterapia. Esta é uma ferramenta comprovadamente eficiente neste tratamento. Estudos comprovaram que através de terapia psicanalítica alcança-se uma redução dos sintomas depressivos assim como o número de tentativas de suicídio e agressão e melhor funcionamento interpessoal e social.
Para os pacientes internados egressos de crises a evolução diminuiu os dias de internação e após a alta estes pacientes, em contraste com outros métodos terapêuticos, também garantiu menores índices de recidiva de episódios extremos após terapia emergencial no hospital.



[1] Spitzer; J. Endicott & M. Gibbon. “Crossing the border into borderline personality and borderline schizophrenia”. Arch. Gen. Psychiatry, 36, 1979.