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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012 | By: Cinthya Bretas

Ainda dormindo com o inimigo?


A algum tempo atrás vendo as fotos da captura de Muamar Kadaffi um estranho mal estar me desconcerta em ver ali na face do ditador o desespero diante da morte.
Frágil e ferido ele tenta se defender e  encolhe o corpo como um cão acuado em desespero. Penso: “Será que neste momento se arrependeu?” E por um segundo, somente consigo ver ali um ser humano em sofrimento e medo. Humilhado, publicamente execrado, executado por um tribunal extrajudicial. A angústia diante da implacabilidade morte e diante da incerteza do que esta seria.
Sim,aqueles que imputam dor e sofrimento, aqueles que matam, torturam, vilipendiam em algum momento também serão passiveis de estar na posição de vitimas. E neste momento eles temem a morte e imploram. Também eles são humanos.
 E estranhamente embora sabendo de todo sofrimento que Kadaffi causou a muitos, me vejo consternada e com pena. Parece sem sentido ter  piedade  de um sádico que perpetrou vários crimes contra a humanidade. Mas é verdade, lastimavelmente, senti pena. Do pobre diabo que foi afastado de um possível afeto familiar, acabando por se tornar um governante sanguinário, que dirigiu com mão de aço e extrapolou em todos os sentidos sua insanidade ideológica. Pena do que talvez tenha sido o seu breve e insuportável inferno na transição para a morte. O inferno da culpa e do arrependimento. Se é que existiu.
Mas logo em seguida suspendi o mal estar e tentei entender o que representa este meu sentimento e para isto, o trouxe para a história da vida privada, onde as reverberações da violência e da opressão ocorrem silenciosamente no cotidiano de cada um. Afinal, todos seremos passíveis de, algum dia, nos deparamos com algozes em nossas vidas.
Alguns chegarão a experimentar algozes poderosos em sua destrutividade. Com sorte, carrascos diretos, que mostrarão de cara e a que vem. Outros, no entanto não terão a mesma sorte. A violência tem muitas faces, miríades de representações muitas delas mascaradas até mesmo em Amor. Amor? Estranho amor.
Esta violência, que acontece no cotidiano das famílias, ali onde ela jamais deveria ter entrado, é uma realidade comprovada. E nos deparamos com sua presença sempre de maneira velada. Ninguém que a sofre quer ou pode falar dela. Existe um acordo implícito ou mesmo imposto através de ameaças ou chantagens.  Esta violência de muitas faces em algumas culturas é até vista com benevolência: necessária e justificável. Afeta vários membros de uma família em hierarquias diferentes e não privilegia idade, sexo, condição socioeconômica ou nível cultural. Imparcial, pode estar ao lado, bem pertinho de nós e pode, inclusive, estar sendo agora estrategicamente ignorada seja em nossa própria vida, seja na vida do vizinho. Embora notória, gritante, atravessando as paredes, embora os pedidos de ajuda reincidentes. Em briga de marido e mulher não se mete a colher. Não é assim que alguns “amigos” se posicionam?

Estatisticamente uma em cada três mulheres já esteve diante do inimigo que, ou a coagiu ao sexo, a agrediu fisicamente chegando ao espancamento ou sofreu algum tipo de abuso moral ou físico em toda sua trajetória de vida. O agressor bem se sabe, é geralmente, um membro de sua própria família. E quando parte do parceiro sexual, seja namorado, marido ou amante, será sempre acompanhada de  agressão psicológica e, de um quarto à metade das vezes, também de sexo forçado . Esta sua forma mais grave, a violência leva à morte da mulher. Assim estatisticamente 40 a 70% dos homicídios femininos são evolução da violência doméstica cotidiana.
Mas é importante entender que não se trata da ocorrência um ato único de agressão física. Esta violência é o desdobramento de um padrão crescente e recorrente, de controle e dominação.  Iniciam-se com pequenos abusos que vão minando as já anteriormente frágeis forças de defesa da vitima até fazê-la refém definitiva. Digo, “ Já anteriormente frágeis” porque o agressor sabe muito bem com quem se mete.Escolhe suas vitimas com preciosidade sabendo  qual se submeterá até o fim. È capaz de perceber quais trazem em sua história afetiva as marcas que o habilitam a entrar como um ladrão e se apossar de suas almas.
O padrão se inicia de maneira gradativa. Primeiro a falta de respeito e a agressão verbal vão sendo introduzidas paulatinamente na vida do casal. Posteriormente, através de menosprezo, intimidações e humilhação constantes e se estabelece o Abuso psicológico.  Em seguida, ou concomitantemente se inicia o martírio físico com empurrões, depois tapas, “sacudidas”, puxões de cabelo, que evoluem para chutes, surras, tentativas de estrangulamento, queimaduras, perfurações... E a ofensiva se desenrolam em crescente perversão sempre acompanhados de ameaças que tanto podem ser dirigidas diretamente a vitima principal como também se estendem aos membros mais próximos e também frágeis da família como filhos ou os mais idosos.
Alguns com sofisticada crueldade vão, pouco a pouco, destruindo as defesas psicológicas que restam a vitima através de quebras de objetos favoritos, móveis, e as próprias economias da pessoa agredida. Dilapidando seus recursos materiais de maneira a que a vitima fique completamente a sua mercê, sem ter para onde fugir. Para isto o agressor pode, por exemplo, recorrer a uma solicitação de que se façam empréstimos que não serão pagos no nome da vítima, ou pode ir se apossando de seus bens para “aplicação” ou investimentos dos quais jamais se verá resultado.
A extensão e o golpe de misericórdia na autonomia da pobre, se fará através do controle total e irrestrito e pela criação de um circulo de isolamento da mulher afastando-a dos amigos e da família e através da constante vigília sobre cada passo que dá ou pelo afastamento de qualquer atividade que possa abrir seus horizontes, ou apontar saídas, como estudar, ir a festas ou viajar, por exemplo. Alguns mais astutos operarão através da criação de uma rede de isolamento negativa. Para se garantir nas suas futuras atuações abusivas o opressor se apropria de todas as relações da vitima, tornando-se amigo ou genro exemplar, impecável e, paulatinamente substituindo os afetos antes reservados a vitima unicamente para si. Poderá também criar uma pequena rede de intrigas em torno da vitima preparando terreno para possíveis rebeldias da mesma. Queixas sobre seu comportamento são ventiladas, aos poucos, habilmente de maneira tal que, caso a vitima resolva pedir ajuda será repreendida pelos amigos por seu péssimo comportamento. Ficando na defesa do algoz a retaliação violenta é vista como plenamente justificável. Este comportamento coercitivo por parte do agressor terá sempre para com a vítima a justificativa ou do ciúme ou do desejo de protegê-la. A Coerção e violência sexual logicamente serão parte integrante de todo este repertório aviltante.
Ouvindo relatos de pessoas que foram submetidas a duras temporadas deste cárcere afetivo qualquer um se sente inconformado e atônito  com tamanha estupidez sem sentido. E sempre vem o questionamento de como seria possível que isto se perpetuasse assim, indefinidamente, sem que ocorra retaliação ou movimentos em direção a libertação. Esta é a questão central desta trama de horror.
Se o agressor perpetua é porque a vitima se mantém no estado de vitimização. Em primeiro lugar, deve-se considerar que estranhamente ela será a primeira a proteger seu agressor. A primeira providência neste sentido será manter em segredo sua condição. Maquiagem, óculos escuros e roupas de mangas compridas esconderão as marcas da agressão.  Assim seu sofrimento costuma ser reservado (e perpetuado) e muitas vezes quando é descoberto terá um rol de desculpas por parte da vitima. Todas as justificativas possíveis se alternarão para explicar as razões do comportamento abusivo do companheiro. Quando por fim se torna impossível por alguma razão a manutenção da situação, uma arapuca já estará armada. Após um inesgotável rol de intimidações sofridas ela, agora, apesar de não suportar mais, não denuncia com medo de vê-las concretizadas. Algumas temerão diante da incerteza de sua sobrevivência financeira, sentem-se incapazes de retomar sua vida em liberdade. Outras vítimas do já mencionado cerco promovido pelo algoz, temerão a perda de suporte da família e dos amigos que em sua imaginação certamente atribuirão a ela a culpa de tudo pelo que está passando. O que em algumas situações nem é de todo fantasioso.
A esperança de que alguma mágica aconteça e ele se modifique sempre acompanha as fantasias da mulher que sofre violência. E algumas outras argumentarão sobre a felicidade dos filhos, sobre o quanto sofrerão ignorando o maior mal que já sofrem e o fato de que se, já não são, também podem se tornar vitimas de abuso e violência tanto na presente situação como no futuro, como resultado do trauma sofrido na convivência familiar.
Porque o fato é que aqui também se repete. Repete-se o que se sofreu ou o que se presenciou traumaticamente. O modelo de violência fica como um molde ao qual o sujeito tenta desesperadamente se adequar. Cada memória soterrada da infância de rejeição, maus tratos, negligencia ou abuso sexual buscará repetição pelo resto de sua vida. Seja como agressor seja como vítima.
         E se isto em parte explica a origem da fúria daquele que perpetra a agressão, no entanto não a justifica. Portanto criar coragem e buscar ajuda é fundamental. Mas de onde tirar esta coragem se conjecturarmos que a vitima de violência doméstica é igualmente oriunda de uma família onde se sofreu este tipo de agressão? Violência, maus tratos e abuso sexual costumam ser uma herança maldita  que se repete de pai para filho e de mãe para filha, ad eternum ,se nenhum movimento ou evento inesperado fortuitamente interromper esta propagação.
Se hoje vários órgãos federais municipais e ONGs dão suporte às vitimas de violência doméstica, se hoje no Brasil existe uma lei como a Maria da Penha, ao mesmo tempo a trava do medo impede as suas vítimas confessar e buscar ajuda. A origem deste comportamento é plenamente justificada a partir de uma investigação sobre o histórico psico-afetivo de ambos, vítima e opressor. Porque ambos estão doentes.
Entenda-se que existem vários níveis de consciência nesta patologia. Níveis que, entrementes, não retiram nem minimizam  a culpabilidade .
É bastante comum que estes casais quando ainda dentro de uma capacidade de discernimento, menos brutalizados em seus históricos pessoais ainda tentam conseguir ajuda profissional. No entanto muitas vezes é justamente é aquele que inflige sofrimento ao seu par que busca ajuda em terapia de casal.  Muitos chegam “inocentes” e manipuladores, com o discurso justificador da desobediência. O outro não obedece, o outro o faz perder a razão. Seu desejo é que o terapeuta o ajude a perpetuar a carceragem.
Mas quase todos, como é contumaz nas terapias de casal, chegam depois da hora, depois que já rimaram e desrimaram amor e dor ao extremo do impossível. Quando não há mais perdão. Porque as marcas do corpo já podem ter sarado, por alguma trégua parcial. Mas as marcas da alma ficaram para sempre. Aquilo que existe entre os dois é um misto, da perversão de amor, que goza através do medo e do sofrimento que infligem, e do prazer doente em receber o sofrimento nas mãos como um presente. É tudo. E causa pena. Mas, não é amor. Amor ainda é uma lição a ser aprendida. Embora não tenham culpa da herança que carregam, são responsáveis por sua manutenção, geração a geração
Portanto a primeira e principal pessoa que poderá libertar definitivamente a vitima dos maus tratos será sempre ela mesma, e somente sua coragem na decisão de pôr fim definitivamente a esta cadeia que se perpetua talvez desde muitos tempos velados, anteriores a sua memória mais antiga. Buscar ajuda, no entanto é primordial, pois se trata de uma batalha muito árdua para ser levada em solidão.
terça-feira, 1 de novembro de 2011 | By: Cinthya Bretas

Eu te compreendo



Eu sei das tuas tensões, dos teus vazios e da tua inquietude. Eu sei da luta que tens travado à procura de Paz. Sei também das tuas dificuldades para alcançá-la. Sei das tuas quedas, dos teus propósitos não cumpridos, das tuas vacilações e dos teus desânimos. Eu te compreendo... Imagino o quanto tens tentado para resolver as tuas preocupações profissionais, familiares, afetivas, financeiras e sociais.
Imagino que o mundo, de vez em quando, parece-te um grande peso que te sentes obrigado a carregar. E tantas vezes, sem medir esforços. Eu conheço as tuas dúvidas, as dúvidas da natureza humana. Percebo como te sentes pequeno quando teus sonhos acalentados vão por terra, quando tuas expectativas não são correspondidas.
E essas inseguranças com o amanhã? E aquela inquietação atroz em não saberes se amanhã as pessoas que hoje te rodeiam ainda estarão contigo? De não saberes se reconhecerão o teu trabalho, se reconhecerão o teu esforço. E, por tudo isto, sofres, e te sentes como um barco sozinho num mar imenso e agitado. E não ignoro que, muitas vezes, sentes uma profunda carência de amor.
Quantas vezes pensaste em resolver definitivamente os teus conflitos no trabalho ou em casa. E nem sempre encontraste a receptivamente esperada ou não tiveste força para encaminhar a tua proposta. Eu sei o quanto te doem os teus limites humanos e o quanto às vezes te parece difícil uma harmonia íntima. E não poucas vezes, a descrença toma conta do teu coração.
Eu te compreendo... Compreendo até tuas mágoas, a tristeza pelo que te fizeram, a tristeza pela incompreensão que te dispensaram, pelas ingratidões, pelas ofensas, pelas palavras rudes que recebeste. Compreendo até as tuas saudades e lembranças. Saudade daqueles que se afastaram de ti, saudade dos teus tempos felizes, saudade daquilo que não volta nunca mais...
E os teus medos? Medo de perderes o que possuis, medo de não seres bom para aqueles que te cercam, medo de não agradares devidamente às pessoas, medo de não dares conta, medo de que descubram o teu íntimo, medo de que alguém descubra as tuas verdades e as tuas mentiras, medo de não conseguires realizar o que planejaste, medo de expressares os teus sentimentos, medo de que te interpretem mal.
Eu compreendo esses e todos os outros medos que tens dentro de ti. Sou capaz de entender também os teus remorsos, as faltas que cometeste, o sentimento de culpa pelos pequenos ou grandes erros que praticaste na tua vida. E sei que, por causa de tudo isso, às vezes te encontras num profundo sentimento de solidão. É quando as coisas perdem a cor, perdem o gosto e te vês envolto numa fina camada de indiferença pela vida. Refiro-me àquela tua sensação de isolamento, como se o mundo inteiro fosse indiferente às tuas necessidades e ao teu cansaço. E nesse estado, és envolvido pelo tédio e cada ação ou obrigação exige de ti um grande esforço. Sei até das tuas sensações de estares acorrentado, preso; preso às normas, aos padrões estabelecidos, às rotineiras obrigações: "Eu gostaria de... mas eu tenho que trabalhar, tenho que ajudar, tenho que cuidar de, tenho que resolver, tenho que!...".
 Eu te compreendendo... Compreendo os teus sacrifícios. E a quantas coisas tens renunciado, de quantos anseios tens aberto mão!... E sempre acham que é pouco... Pouca coisa tens feito por ti e tua vida, quase toda ela, tem sido afinal dedicada a satisfazer outras pessoas.
Sei do teu esforço em ajudar às outras pessoas e sei que isso é a semente de tuas decepções. Sei que, nas tuas horas mais amargas, até a revolta aflora em teu coração. Revolta com a injustiça do mundo, revolta com a fome, as guerras, a competição entre os homens, com a loucura dos que detêm o poder, com a falsidade de muitos, com a repressão social e com a desonestidade.
Por tudo isso, carregas um grau excessivo de tensões, de angústia e de ansiedade. Sonhas com uma vida melhor, mais calma, mais significativa. Sei também que tens belos planos para o amanhã. Sei que queres apenas um pouco de segurança, seja financeira ou emocional, e sei que lutas por ela. Mas, mesmo assim, tuas tensões continuam presentes. E tu percebes estas tensões nas tuas insônias ou no sono excessivo, na ausência de fome ou na fome excessiva, na ausência de desejo para o sexo ou no desejo sexual excessivo.
O fato é que carregas e acumulas tensões sobre tensões: tensões no trabalho, nas exigências e autoritarismos de alguns, nas condições inadequadas de salário e na inexistência de motivação, nos ambientes tóxicos das empresas, na inveja dos colegas, no que dizem por trás. Tensões na família, nas dependências devoradoras dos que habitam a mesma casa; nos conflitos e brigas constantes, onde todos querem ter razão; no desrespeito à tua individualidade, no controle e cobrança das tuas ações.
 Eu te compreendo, e te compreendo mesmo. E apesar de compreender-te totalmente, quero dizer-te algo muito importante. Escuta agora com o coração o que te vou dizer: Eu te Compreendo, mas não te apóio! Tu és o único responsável por todos estes sentimentos. A vida te foi dada de graça e existem em ti remédios para todos os teus males. Se, no entanto, preferes a autocomiseração ao invés de mobilizares as tuas energias interiores, então nada posso te oferecer.
Se preferes sonhar com um mundo perfeito, ao invés de te defrontares com os limites de um mundo falho e humano, nada posso te oferecer. Se preferes lamentar o teu passado e encontrar nele desculpas para a tua falta de vontade de crescer; se optastes por tentar controlar o futuro, o que jamais controlarás com todas as suas incertezas; se resolveste responsabilizar as pessoas que te rodeiam pela tua incompetência em tratar com os aspectos negativos delas, em nada posso te ajudar. Se trocaste o auto-apoio pelo apoio e reconhecimento do teu ambiente, então nada posso te oferecer.
Se queres ter razão em tudo que pensas; se queres obter piedade pelo que sentes; se queres a aprovação integral em tudo que fazes; se escolhestes abrir mão de tua própria vida, em nome do falso amor, para comprares o reconhecimento dos outros, através de renúncias e sacrifícios, nada posso te oferecer.
Se entendeste mal a regra máxima "Amar ao próximo como a ti mesmo", esquecendo-te de amar a ti mesmo, em nada posso te ajudar. Se não tens um mínimo de coragem para estar com teus próprios sentimentos, sejam agradáveis ou dolorosos; se não tens um mínimo de humildade para te perdoares pelas tuas imperfeições; se desejas impressionar os outros e angariar a simpatia para teus sofrimentos; se não sabes pedir ajuda e aprender com os que sabem mais do que tu; se preferes sonhar, ao invés de viver, ignorando que a vida é feita de altos e baixos, nada posso te oferecer.
Se achas que pelo teu desespero as coisas acontecerão magicamente; Se usas a imperfeição do mundo para justificar as tuas próprias imperfeições; Se queres ser onipotente, quando de fato és simplesmente humano; Se preferes proteção à tua própria liberdade; Se interiorizaste em ti desejos torturadores; se deixaste imprimirem-se em tua mente venenosas ordens de: "Apressa-te!", "Não erres nunca!", "Agrade sempre!"; Se escolheste atender às expectativas de todas as pessoas; Se és incapaz de dar um Não quando necessário, em nada posso te ajudar.
 Se pensas ser possível controlar o que os outros pensam de ti; se pensas ser possível controlar o que os outros sentem a teu respeito; se pensas ser possível controlar o que os outros fazem; se queres acreditar que existe segurança fora de ti, repito: Eu te Compreendo mas, em nome do verdadeiro Amor, jamais poderia apoiar-te! Se recusas buscar no âmago do teu ser respostas para os teus descaminhos, se dás pouca importância a teus sussurros interiores; se esqueceste a unidade intrínseca dos opostos em nossa vida terrena; se preferes o fácil e abandonaste a paciência para o Caminho; se fechaste teus ouvidos ao chamado de retorno; se perdeste a confiança a ponto de não poderes entregar tua vida à vontade onipotente de Deus; se não quiseste ver a Luz que vem do Leste; se não consegues encontrar no íntimo das coisas aquele ponto seguro de equilíbrio no meio de todas as tormentas e vicissitudes; se não aceitas a tua vocação de Viajante com todos os imprevistos e acidentes da Jornada; se não queres usar o tempo, o erro, a queda e a morte como teus aliados de crescimento, realmente nada posso fazer por ti.
 Se aspiras obter proteção quando o que precisas é Liberdade; se não descobriste que a verdadeira Liberdade e a autêntica Segurança são interiores; se não sabes transformar a frase "Eu tenho que..." na frase "Eu quero!"; se queres que o fantasma do passado continue a fechar teus olhos para a infinidade do teu aqui e agora; se queres deixar que o fantasma do futuro te coloque em posição de luta com o que ainda não aconteceu e, provavelmente, não chegará a acontecer; se optaste por tratar a ti mesmo como a um inimigo; se te falta capacidade para ver a ti mesmo como alguém que merece da tua própria parte os maiores cuidados e a maior ternura; se não te tratas como sendo a semente do próprio Deus; se desejas usar teus belos planos de mudar, de crescer, de realizar, como instrumentos de auto-tortura; se achas que é amor o apego que cultivas pelos teus parentes e amigos; se queres ignorar, em nome da seriedade e da responsabilidade, a criança brincalhona que habita em ti; se alimentas a vergonha de te enternecer diante de uma flor ou de um por de sol; se através da lamentação recusas a vida como dádiva e como graça, não posso te apoiar.
Mas, se apesar de todo o sono, queres despertar; se apesar de todo o cansaço, queres caminhar; se apesar de todo o medo, queres tentar; se apesar de toda acomodação e descrença, queres mudar, aceita então esta proposta para a tua Felicidade: A raiz de todas as tuas dificuldades são teus pensamentos negativos. São eles que te levam para as dores das lembranças do passado e para a inquietação do futuro. São esses pensamentos que te afastam da experiência de contato com teu próprio corpo, com o teu presente, com o teu aqui e agora e, portanto, distanciando-te de teu próprio coração. Tens presentes agora as tuas emoções? Tens presente agora o fluxo da tua respiração? Tens presente agora a batida do teu coração? Tens agora a consciência do teu próprio corpo? Este é o passo primordial.
Teu corpo é concreto, real, presente, e é nele que o sofrimento deságua e é a partir dele que se inicia a caminhada para a Alegria. Somente através dele se encaminha o retorno à Paz. Jamais resolverás os teus problemas somente pensando neles. Começa do mais próximo, começa pelo corpo. Através dele chegarás ao teu centro, ao teu vazio, àquele lugar onde a semente germina. Através da consciência corporal, galgarás caminhos jamais vistos, entrarás em contato com os teus sentimentos, perceberás o mundo tal como é e agirás de acordo com a naturalidade da vida.
Assume o teu corpo e os teus sentimentos, por mais dolorosos que sejam; assume e observa-os, simplesmente observa-os. Não tentes mudar nada, sê apenas a tua dor. Presta atenção, não negues a tua dor. Para que fingir estar alegre se estás triste? Para que fingir coragem se estás com medo? Para que fingir amor se estás com ódio? Para que fingir paz se estás angustiado? Não lutes contra teus sentimentos, fica do teu próprio lado, deixa a dor acontecer, como deixas acontecer os bons momentos.
Pára, deixa que as coisas sejam exatamente como são. Entra nos teus sentimentos sem os julgar, não fujas deles, não os evites, não queira resolvê-los escapando deles - depois terás de te encontrar com eles novamente, é apenas um adiamento, uma prorrogação. Torna-te presente, por mais que te doa. E, se assim fizeres, algo de muito belo acontecerá! Assim como a noite veio, ela também se irá e então testemunharás o nascer do dia, pois à noite o sol escurece até a meia-noite e, a partir daí, começa um novo dia. Se assim fizeres, sentirás brotar de dentro de ti uma força que desconhecias e te sentirás renovado na esperança e a vida entrando em ti. Se assim fizeres, entenderás com o coração que a semente morre mesmo, totalmente, antes de germinar e que a morte antecede a vida. E, se assim fizeres, poderei dizer-te então que: Eu te Compreendo e que, assim, tens todo o meu apoio! E verás com muita alegria que, justamente agora, já não precisas mais do meu apoio, pois o foste buscar dentro de ti e o encontraste dentro da tua própria dor!"

por Antônio Roberto Soares - FRC
terça-feira, 26 de abril de 2011 | By: Cinthya Bretas

Corpo, registro da mente e das emoções



Quando sentimos medo, raiva, ou algum tipo de emoção destrutiva semelhante, nosso corpo reage com modificações fisiológicas e neurológicas.
Estas manifestações são claramente visíveis a ponto de estarem instaladas no linguajar popular: “vermelho de raiva”, “suando frio de medo”, “branco de susto”, ”com as pernas bambas” como referências a fenômenos neuro-vegetativos. São as manifestações exteriores, corporais das emoções que assomam, vem à tona e nos possuem. E podem ficar para sempre.
Distúrbios digestivos os mais variados, alergias e distúrbios neuro-vegetativos afins,  medos ansiedades e angústias despropositadas , dores articulares, musculares e de cabeça , insônias constantes assim como alguns outros sintomas repetitivos e de difícil diagnóstico e tratamento demonstram que estas emoções não puderam ser expurgadas.
Se uma emoção é freqüente, se repete em nossas vidas, acaba por criar cristalizações. Cria-se uma organização muscular fixa que denuncia uma organização psíquica também fixa. Tratam-se das couraças musculares das quais falava William Reich. Estas couraças, resumo de encurtamento e estiramentos musculares, são também resultado de represamento ou congelamento de energia. E o que são as emoções senão energia?

Foi a partir da observação deste fenômeno e da constatação da importância de uma intervenção sobre estes bloqueios energéticos que Reich, em primeiro lugar, seguido pelo seu discípulo Alexander Lowen buscaram desenvolver uma técnica psicoterapêutica na qual a abordagem sobre estes represamentos energéticos fosse um ponto fundamental do tratamento.

Segundo Reich: "Blindagem é a condição que ocorre quando a energia é ligada pela contração muscular e não flui através do corpo" (Reich: 1936).
A couraça, portanto seria "a soma total das atitudes típicas de caráter, que um indivíduo desenvolve como um bloqueio contra a sua excitação emocional, resultando em rigidez no corpo e falta de contato emocional".
Ele assim definiu a couraça muscular: "a soma total de espasmos musculares crônicos que um indivíduo desenvolve como um bloco contra a irrupção de emoções e sensações de órgão, particularmente ansiedade, raiva e excitação sexual" (Reich: 1936).

Portanto estas emoções de acordo com sua qualidade e de como foram fixadas no corpo criarão bloqueios de energia que foram denominados anéis de encouraçamento. Este anéis de encouraçamento se localizam em pontos chave de nosso corpo além de acarretarem uma grande variedade de sintomas físicos denotam uma manifestação psiquica correlata e proporcional ao nível de encouraçamento.
 Constata-se que a estrutura do corpo estará sendo constantemente modificada como um reflexo as tensões as quais esta sujeita (Lowen,1965 ) por isso a utilização da estrutura corporal na análise da personalidade além de justificável, possibilita uma via de acesso terapêutico eficiente através da liberação da estrutura muscular crônica nos seus vários segmentos  e juntos com ela seus sintomas e limitações psico-afetivas.  A quantidade de energia que um corpo possui e como ele a usa irá determinar e refletir em sua personalidade , uma personalidade vibrante e feliz existe num corpo sem medos.

A análise bioenergética e suas intervenções habilitam o terapeuta a um encontro profundo com as memórias afetivas negativas que estão inscritas no corpo do paciente e se apóia sobre princípios que se assemelham em muito a técnicas corporais ancestrais de desbloqueio como a Yoga.
Seu trabalho é o de trazer o paciente de volta para o seu corpo aterrando-o e habilitando-o a tirar o maior proveito da vida que ali circula. Esta abordagem inclui o trabalho de desbloqueio que abarca a respiração, a remobilização corporal e o acesso e a expressividade de emoções e sentimentos desconhecidos.
O retorno e aumento de energia circulante é facilmente percebido pelo sentimento de bem estar e fluência afetiva na vida, pela ampliação da respiração, dos movimentos, da fala e dos olhos.
O objetivo da Bioenergética é ajudar o indivíduo a retomar sua natureza intrínseca de liberdade e seu estado de graciosidade e beleza correspondentes. Não devemos nos esquecer que o conceito de liberdade aqui se aplica à ausência de restrições ao fluxo de sentimentos e sensações, e que a graciosidade é o estado daquele que alcança a expressão fluente de movimentos em direção à vida, ao amor e a realização, e que a beleza neste contexto resulta como manifestação da flagrante harmonia interna que tal fluir provoca.